Quais livros marcaram sua vida? | RDNEWS

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Gostei de ler quando criança, como os livros de fábulas em que me baseei várias vezes. Depois devorei toda a Série Vaga-Lume, de Monteiro Lobato, além de ser assistente e leitor assíduo da revista Nosso Amiguinho e da Turma da Mônica. Como eu morava em uma cidade pequena e não tinha internet, o acesso era restrito, mas não impossível.

O primeiro grande autor que marcou minha vida foi Machado de Assis com sua linguagem elaborada, mais envolvente, irônica, que estabelece um diálogo como o leitor (metalinguagem). Tive uma ‘apaixonite’ de Machado de Assis por cerca de dois 13 anos, que eu lia com um caderno e um dicionário (sempre gostei de anotar frases e reflexões).

Na escola somos obrigados a ler todos os estilos literários, ou que seja bom para ampliar o conhecimento, mas confesso que não aprecio o romantismo de autores como José de Alencar (Senhora, Iracema, O Guarani, Lucíola, Cinco Minutos ), Álvares de Azevedo (Lira dos Vinte anos) e Joaquim Manoel de Macedo (A Moreninha). Talvez isso tenha delimitado o fim da minha infância.

Memórias póstumas de Brás Cubas e Esaú e Jacó tornaram-se por algum tempo meus livros preferidos, destacando-se na estante. Depois caíram nas minhas mãos O primo Basílio, O crime do Padre Amaro e O Maias (que viraram filmes e séries), do excepcional Eça de Queiroz, são livros tão bons que hoje me lembro maravilhosamente bem!

Que a vida não é um conto de fadas, todo mundo já sabe, mas entendo que desisto e tomo um gostinho das tragédias, que são escritas exclusivamente por cabelos russos. Outro romance marcante na adolescência foi Anna Kariênina, de Liev Tolstoi, que o próprio Dostoiévski descreveu como “impecável” e que traçou a seguinte reflexão: “Todas as famílias felizes são iguais, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”.

Observei com interesse como as mulheres eram retratadas por seus homens na literatura, desde a Bíblia em que Eva é a vilã que “come a maçã proibida” amarrou a frívola e temperamental Anna, levando o leitor a assimilar que ela mesma havia morrido para sua própria morte (por suicídio) após trazer seu “marido virtuoso” com um homem imaturo (são, como sempre, eternos garotões irresponsáveis).

Em A Dama das Camélias, do escritor francês Alexandre Dumas, ou amor verdadeiro entre uma cortesã e um jovem, ele poderia ser derrotado, mas ela morre, aos 23 anos, com tuberculose como castigo pela vida de devassa (uma inteligente e livre mulher merece ser punida, claro). Ao mesmo tempo, me entusiasmei com o livro A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, escritor tcheco que mistura história, filosofia e erotismo (que dava vergonha de ler).

“Você nunca pode saber o que deve querer, porque você só tem uma vida e não pode compará-la com vidas anteriores ou corrigir vidas posteriores. […] É isso que leva a vida a parecer sempre um esboço. Não entretanto, mesmo o esboço não é uma palavra verdadeira, porque um esboço é sempre ou o projecto de algo, para a preparação de uma pintura, enquanto o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro ”, dizia um trecho ao qual mantenho até hoje.

Também, como estudante universitária, devorei os quatro livros que narram a lenda do Rei Arthur: As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley, que me transportou para uma outra visão de sociedade onde as mulheres eram respeitadas e valorizadas, eu escolhia seus parceiros ( Eu poderia ter mais de um inclusive) e exaltar sua espiritualidade sem serem queimadas como bruxas, internadas em hospícios ou enclausuradas em conventos. O povo cela fazia cultos à Deusa (e não a um Deus – masculino). Achei inacreditável!

Amarrei o vestibular a dezenas de livros, inclusive aqueles ditos “ruínas” pelos professores, como O Alquimista, Diário de um mago e Brida, de Paulo Coelho, além de Vidas Secas, que realmente é uma obra prima de Graciliano Ramos, impossível entristecido pela cachorrinha Baleia ou não sente empatia pelo fato dela enfrentar a escassez de comida e água no sertão. As pessoas internalizam cada palavra para sempre na memória e no coração.

Apesar de não gostar muito do estilo de realismo exagerado (naturalismo), não posso deixar de citar O Mulato e O Cortiço, de Aluísio Azevedo, que formou o ápice da crítica social ao ingressar na universidade, é assim em 1997 .É importante informar que sou a única da família com esse peculiar gosto pela leitura, sou uma filha de pais que concluiu a lição fundamental para os semi-analfabetos. A diferença? Eles vão me encorajar a ler. (mesmo sem ler)

Imagine o choque de estar estudando filosofia e sociologia pela primeira vez. Gostei de Umberto Eco, autor de O nome da Rosa, que ainda escreveu O fascismo eterno e A história da Beleza. Lembro-me do meu primeiro contato com as ideias de Friedrich Hegel, Arthur Schopenhauer, Karl Marx, Friedrich Nietzsche, Theodor Adorno e Michel Foucault, este último pseudônimo, que causaram um curto-circuito em nossos neurônios com suas obras Watch and Punish the Microphysics of Power! (que continuam sendo muito atualizados)

Já cometi muitos erros em relação ao orgulho de ler, então procuro não opinar sobre o que é “bom” ou “ruína”, porque depende. Obviamente existem obras clássicas que são aclamadas por todos, adultos e crianças, como O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. Embora seja escritor de apenas um livro, a obra é a mais divulgada mundialmente depois da Bíblia. (foi uma experiência única lê-lo e apresentá-lo em inglês)

No dia 7 de janeiro comemoramos o dia do leitor. Mais infelizmente, não lembrei, pois o livro continua sendo um item de luxo para a maioria das famílias

Rosa Domingues

Portanto, não enfrentamos como eu. Certa vez um colega me perguntou o que eu havia achado do livro A Cabana, de William P. Young, respondi na lata “uma bela porcaria”. Acontece que depois precisei tirar uma foto minha dizendo que “não estava tão ruim assim e que ela estava gostando”. O que me irrita (risos). Mas minha opinião tem como referência Cem Anos de Solidão e O amor nos tempos do Cólera, de Gabriel José García Márquez; Ensaio sobre a Cegueira e o Segundo Evangelho de Jesus Cristo, de José Saramago; Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski!

Eu poderia escrever um livro sobre os livros que tenho. Na lista dos dois mais recentes que me marcaram estão o excepcional Torto Arado, de Itamar Vieira Junior; Little Belle, de Chris Cleave; e O conto da aia, de Margaret Atwood (que inspirou a série The Handmaid’s Tale). Uma das minhas metas para 2023 é voltar a ser uma leitora mais voraz, como nunca fui antes, com uma média de dois livros por mês, no mínimo (24 por ano). Ando meio não consegue ler ultimamente.

A leitura, além de ser um exercício importante para o cérebro, estimula a reflexão, conhecer pessoas, lugares, costumes, ajuda a desenvolver nosso lado crítico, a expandir nossos horizontes, inclusive nosso vocabulário. Em A Cidade do Sol, O silêncio das montanhas e O caçador de pipas, de Khaled Hosseini, por exemplo, o leitor entende um pouco melhor a cultura afegã e ainda passa a valorizar todas as conquistas das mulheres não ocidentais (terríveis ou o que ainda acontece por lá).

No dia 7 de janeiro comemoramos o dia do leitor. Mais infelizmente, não lembrei, pois ou livro continua sendo um item de luxo para a maioria das famílias. As últimas estatísticas dizem que perdemos mais de 800 bibliotecas no país, e que o brasileiro só lê em média quatro livros por ano. Pouco, muito pouco. Então, quero refletir sobre isso e convidá-lo para um desafio:

Que tal escrever uma lista de leitura e compartilhar com os amigos? Vamos nos empenhar para mudar essa estatística e desenvolver o hábito de saudar a leitura? O que você encontrou? “Um livro, uma lata, uma criança e um professor podem mudar o mundo”, disse a ativista paquistanesa Malala Yousafzai, a mais nova ganhadora do Prêmio Nobel da Paz.

Rose Domingues é jornalista, articulista da RD Comunicação e escreve com exclusividade nesta coluna nas segundas feiras. E-mail: rose.rdcomunicacao@gmail.com

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