Perdida, Globo não consegue ficar melhor do que sempre dominou

André Santana

O programa da Globo vive um contraste. Enquanto as reprises de Chocolate com Pimenta (2003) e O Rei do Gado (1996) bomb à tarde, os inéditos Cara e Coragem e Travessia são largamente ignorados pelo público.

Lúcia Alves

O mais impressionante desta etapa é que tanto O Rei do Gado quanto Chocolate com Pimenta estão sendo exibidos pela quarta vez na emissora.

Afinal, que decisão a Globo deve ter nessa situação?

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clássicos

As duas reprises da Globo são dois grandes clássicos da dramaturgia. Chocolate com Pimenta consolidou o estilo “comédia romântica de época” que consagrou a carreira de Walcyr Carrasco. Já O Rei do Gado é o típico drama rural de Benedito Ruy Barbosa que, ao lado de Renascer (1993) e Pantanal (1990), forma um poderoso conjunto.

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Apesar de serem dois romances diferentes, eles usam muito bem as fórmulas mais básicas de um bom folhetim. São enredos pautados na emoção: cada um a seu modo, espreitam o cabelo público que tem de ser mais elementar.

Antonio Fagundes - O Rei do Gado

Chocolate com Pimenta é um romance ingênuo, divertido e familiar. Possui uma galeria de personagens carismáticos, certamente tramados por meio de piadas que serão recicladas ao longo de seus mais de 200 capítulos. Seus personagens parecem vivos e se conectam com o público por meio da identificação.

Já O Rei do Gado desenha um pano de fundo contemporâneo que ainda parece bastante atual, apesar de já terem passado quase 30 anos desde a sua produção.

Ao mesmo tempo, ele espicaça o espectador médio com duas fórmulas básicas: o romance à la My Fair Lady de Bruno Mezenga (Antonio Fagundes) e Luana (Patrícia Pillar), além do conflito familiar shakespeariano entre os Mezenga e os Berdinazzi. É uma trama bem construída.

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sem emoção

Paolla Oliveira e Marcelo Serrado

Por mais que esse seja, ou aparentemente pouco, o caso do público de Cara e Coragem e Travessia, mostramos o quanto as novelas atuais carecem de emoção. A novela das sete, por exemplo, preocupou-se em criar um mistério, mas não conseguiu fazer o público se conectar com seus personagens. O povão não embarcou na história.

O mesmo problema aparece em Travessia, e de certa forma é ainda pior, já que o enredo é todo mal amarrado. Embora a história não faça sentido, seus personagens não “conversam” com o público. Brisa (Lucy Alves), Oto (Romulo Estrela) e um ao outro parecem congelados, comovidos pelas circunstâncias. Não é carne e urso.

Na verdade, Travessia e Cara e Coragem apenas reforça um problema que vemos se tornando frequente nos folhetins da Globo: muita preocupação com a forma, pouca preocupação com o conteúdo. É ótimo ver um romance bem embalado, com cenários suntuosos e direção surpreendente. Mas tudo não passa de um monte de técnicas se não tiver emoção envolvida. O público quer se emocionar, e não vai reparar na fotografia do jantar.

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remakes em alta

Pantanal - Osmar Prado

Justamente por isso o remake de Pantanal (2022) fez tanto sucesso. A novela oferece ao público um visual de encheros olos. Mas, mais do que isso, emociona o espectador. Bons personagens, magia, conflitos humanos bem construídos, tudo dentro do que se espera de um romance clássico. Um bom folhetim.

Por isso, o público parece mais interessado em histórias antigas do que em novas. Porque os romances antigos, como você pode ver, têm um potencial de encantamento muito maior do que você tem atualmente. Algo se perdeu no andamento, e fica claro quando comparamos as reprises com os novos romances.

Evidentemente, evoluir é necessário. Mas, nesse processo, não se pode perder de vista o elemento básico do folclore, que é a emoção. Veja Todas as Flores, excelente exemplo de romance novo, bem firmado na contemporaneidade, mais que em nenhum momento trouxe o que há de primordial no folhetim. É um romance.

Cara e Coragem passaram longe de ser um novelão. Travessia, pior ainda. Enquanto os romances atuais insistirem nisso tudo mecânico, o público continuará preferindo reprises.

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