Livros enfrentam a fome no Brasil do pós-guerra e em tempos de ‘agro pop’

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Na ausência de políticas públicas adequadas, alta nos preços dos alimentos e pessoas em busca de caminhos de ursos parecem tornar tristemente atual a leitura de “Geografia da Fome – O Dilema Brasileiro: Pão ou Aço”. , clássico do escritor Josué de Castro que ganhou nova edição em 2022 e releitura, coletânea de artigos “Da Fome à Fome: Diálogos com Josué de Castro”.

A primeira é a reedição de uma obra que modifiquei como o problema da fome seria entendido e foi lançada originalmente em 1946, mesmo após os escombros da Segunda Guerra Mundial e no clima de redemocratização, após a ditadura do Estado Novo.

Castro não apenas levantou um clássico, mas ajudou a quebrar a crença de que a falta de alimentos era resultado da escassez de recursos naturais ou das características da população. Investigou o que levou o Brasil, de terras generosas e férteis, a passar fome.

Por meio de dois aspectos políticos, culturais e econômicos, Josué de Castro desvenda as características e carências alimentares da população da Amazônia, do Nordeste açucareiro, do sertão nordestino, do Centro-Oeste e do Sul.

Ele a compara à situação de populações de diferentes realidades, ao invés de temê-la como um traço comum. Uma família do sertão nordestino e outra que depende do cultivo da cana no litoral, por exemplo, podem viver situações semelhantes de desnutrição, mesmo morando em áreas com condições diferentes.

Torna-se impossível dissociar a escassez de população na área da floresta do agressivo processo de colonização e implantação da monocultura da cana-de-açúcar, que foi devorando pequenas lavouras de grãos, frutas e hortaliças, e as transformou pela paisagem monótona dois fazendas e impactando os hábitos alimentares da população.

A princípio, portanto, apareceria mais como uma decisão político-econômica, um problema social, não sendo o resultado inevitável de um desafio climático ou outras condições geográficas adversas.

Médico e especialista em nutrição, Josué de Castro (1908-1973) também foi embaixador do Brasil na ONU (Organização das Nações Unidas). Tornou-se deputado federal e perdeu os direitos políticos no golpe militar de 1964. Morreu não foi exilado, em Paris.

Talvez a sensibilidade ao sofrimento da população e o rigor técnico para analisar o problema em questão tenham ajudado seu trabalho a atravessar os muros da academia e ser celebrado em diferentes idiomas.

Ela está, por exemplo, no documentário “Josué de Castro, Cidadão do Mundo” (Silvio Tendler, 1994), na série de reportagens do jornalista Marcelo Canellas para o Jornal Nacional, da TV Globo, em 2001, e na música “Da Lama ao Caos”, de Chico Science e Nação Zumbi.

Em 2014, o país deixouia o Mapa da Fome, da ONU, seguindo estratégias de segurança alimentar e nutricional aplicadas desde a redemocratização e reforçadas a partir do início dos anos 2000.

Esse cenário começa a mudar com a espiral de crises econômicas e alta da inflação, agravando-se nos anos seguintes, quando especialistas sugerem um desmonte das políticas de segurança alimentar agravadas pelo governo de Jair Bolsonaro (PL).

Em 2022, o Segundo Inquérito Nacional sobre a Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 confirmou que 33,1 milhões de pessoas não têm garantia nem o que comer.

Os argumentos levantados pelo século 20, para estabelecer que essa questão da fome é política, fazem mais sentido no Brasil de hoje, inclusive a ex-ministra Tereza Campello, em apresentação na comemoração do relançamento da “Geografia da Fome”.

Campello e a pesquisadora Ana Paula Bortoletto são os organizadores do “Da Fome à Fome”, resultado de seminário realizado em 2021 pela Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis ​​e Sustentáveis, da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Os textos são da autoria de nomes como José Graziano da Silva, que foi diretor-geral da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), e Carlos Monteiro, especialista em nutrição e alimentação.

Os autores destacam que o fomento é resultado da escolha de um modelo excludente. Da mesma forma que Castro entendeu que as pessoas não eram fruto da seca ou dos maus hábitos de poeira, eles argumentaram que usar a pandemia do novo coronavírus para justificar a falta de acesso aos alimentos reforça a política de exclusão.

O novo livro regata a importante dos movimentos sociais no combate à fome, ao aportar que a falta do básico para a sobrevivência extrapola para a geografia física e é marcado por signos raciais.

O trabalho também passa pela evolução de dois padrões alimentares da população – e como o consumo exagerado de alimentos ultraprocessados ​​prejudica a saúde e o meio ambiente.

Ela também aponta exemplos de mobilização coletiva para o combate à fome, como a culinária solidária, e discute a nova geografia da produção de alimentos no Brasil: o dilema da industrialização, ou o “pão ou aço” de Josué de Castro, Agora é transformado em “pão ou comodidade”, ao contrário de um país campeão na exportação de grãos, que não conseguiu alimentar seu pó.

Dessa forma, apesar do problema retratado por Josué de Castro nunca ter sido conhecido, ele se repete em um contexto diferente, no qual os registros das safras contrastam com a falta de acesso aos alimentos.

“Disponhamos as atuais lavouras brasileiras de soja uma ao lado da outra, elas ocupariam uma área equivalente a mais de três vezes o território de Portugal (…) Em sentido contrário, portanto, os alimentos básicos da cultura brasileira — arroz e feijão- – tiveram redução de suas áreas de colheita”, diz um trecho.

Além do volume impresso, publicado pela editora Elefante, uma versão digital pode ser baixada gratuitamente no site do projeto.

Em “Da Fome à Fome”, os autores destacam que o desafio para o Brasil alimentar sua população torna-se ainda mais complexo do que na época de Castro, em um momento de desindustrialização, avanço das commodities no padrão de exportação e crise ambiental. Esse desafio está lançado para o novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e que o presidente promete enfrentar.

FOME GEOGRAFIA

Preço R$ 84,90 (impresso) e R$ 54,90 (e-book)Autor Josué de CastroEditora Todavia

DA FOME À FOME

Preço R$ 59,90 Vários Autores. Organizado por Tereza Campello e Ana Paula BortolettoEditora Elefante

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