Filme Adnet sem zumbis evangélicos, mas ria com eles – 12/01/2023 – Ilustrado

Sejamos sinceros, o cinema brasileiro não dá muita bola para o filão evangélico cada vez mais parrudo.

As tramas religiosas foram boas em grandes cinemas, como a espírita “Nosso Lar”, com 4 milhões de espectadores em 2010, e a católica “Maria”, com 2,3 milhões, há 20 anos. Os blockbusters são voltados para os crentes? Ninguém sabe, ninguém viu.

O jogo começou a mudar quando a Igreja Universal do Reino de Deus usou sua máquina para lançar títulos como “Os Dez Mandamentos”, de 2016, e as cinebiografias de Bispo Edir Macedo“Nada a Perder”, que tem volumes um e dois.

Mais esses filmes foram placa branca como um comercial para alvejante. Desse mal ou “Nas Ondas da Fé”, filme que marcelo adnet idealizado em 2014 e que entra em cartaz nesta quinta-feira, não sofre.

Ou Hickson interpretado por Adnet é ou típico brasileiro. O técnico de informática encara seus bicos, vira como pode e sonha em subir. Eu também sou um sujeito de fé. Uma carinha muito bacana, que ajuda velhinhas a guardar pães no computador sem cobrar por isso.

Parte de Jéssika, vivida por Letícia Lima, com a ideia de apresentar o menino a uma apóstola do templo evangélico que a casa frequenta, para ver o emprego decolar na rádio da igreja para o marido. O destino dá carona e Hickson, que sonha em ser locutor, entra sem querer, se fazendo passar por pastor. Um pastor, aliás, com vários trajes de trupe inspirados em Edir Macedo.

Ele sabe que não deve confiar e, na mesma noite, os ouvintes veem os montes querendo dar oferendas à igreja, incentivados pela proclamação do tal pastor Hickson — título que acaba conquistando por acaso, após o mandachuva da igreja detecta seu potencial de dinheiro Trazer para casa.

“Nas Ondas da Fé” não para de surfar nas ondas do público. Evangélicos em poucos anos podem ser a maior fatia religiosa do país, o audiovisual fez muito pouco, aqui anexado, para tratar esse público com o respeito que ele merece. Você está indo agora? A Globo, que na última década teve alguns anos com o grupo, lançou neste mês “Vai na Fé”, sua primeira novela com protagonista em ascensão.

Claro, o filme esbarra em estereótipos que povoam o imaginário progressista, como o dos pastores mais interessados ​​no milagre da multiplicação em suas contas bancárias onde a salvação de dois confia.

É o líder que ganha dinheiro com o dinheiro dos dízimos e da mercantilização das relações na igreja, como a ideia de criar uma espécie de clube de milhares, para que mais pessoas possam pagar mais para ter acesso a privilégios como sentar na frente linha do templo, como um “cliente diamante”.

Melhor ainda, porque também seria um erro factual retratar essa complexa rede de fé como um antro de altruísmo. Óbvio que muita gente nas igrejas pensa nos outros em buffunfa, e que vocês sete pecados capitais também tem vocês aí, como em qualquer outro microcosmo da sociedade —da fiel voluptuosa ao infeliz apóstolo.

Acredite que o crente sabe disso, só não gosta de ver especialistas de fora da religião destilando uma visão bitolada em sua barriga.

O problema seria reduzir os evangélicos a um lado sem escrúpulos para explorar coitadinhos sem nenhuma autonomia. A obra escapa com alguma dignidade da armadilha. Cheio de fé e malícia, ou protagonista, faz parte de uma classe média suburbana que dá suas corridas para conquistar a vida ou que se vê como bandeja para uma elite intelectual que esnoba sua crença evangélica.

Um jantar expresso com essa sensação de deslocamento —Hickson e Jéssika são pela primeira vez um restaurante pomposo, sem saber reviver diante de um milk-shake de atum vendido como uma maravilhosa oitava da gastronomia moderna.

Com notas dramáticas e direção de comédia (Felipe Joffily, de “Muita Calma Nessa Hora” e “E Aí… Comeu?”), o título tem o mérito de mergulhar num universo ainda pouco conhecido pelo baile evangélico.

Serei acusado de não ter lugar de falsidade? Uau. No portal Pleno News, por exemplo, só queria ver o trailer que o “novo filme de Adnet zomba da fé dois evangélicos”.

Cheirando o material como um todo, meu batimento cardíaco é o que dá para sair do cinema com a sensação de rir como os evangélicos, e não apenas rir deles, como por tanto tempo aconteceu. Vamos fé

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