Editora cancela publicação de livros de Carolina Sanín e provoca a ira de Mariana Enriquez

Uma guerra de dois “cancelamentos” está na ordem do dia, em todo o mundo. A reportagem “Mariana Enriquez e o cancelamento da escritora Carolina Sanín”, do jornal argentino “La Nacion” (terça-feira, 8), conta que Almadía, após contratar a publicação de dois livros da escritora e ensaísta colombiana — “ Somos Luces Abismales” e “Sua Cruz no Céu Deserto” —, desistiu do negócio. O editor mexicano sentiu-se patrulhado por causa das posições do autor sobre a política de identidade. Ela é descrita como “transodyant” ou “transfóbica” por membros da comunidade trans e LGBT+.

A escritora Mariana Enriquez e a ensaísta Alexandra Kohan não defenderam as posições identitárias de Carolina Sanín, e ela disse diretamente à opinião livre e assentiu que as duas obras não temiam as posições políticas colombianas. Os argentinos foram duramente criticados no Twitter e, por isso, decidiram cancelar suas contas na rede social. Mais as Duas permanecem no Instagram.

Mariana Enriquez é uma das mais importantes escritoras argentinas da atualidade. Escreveu, entre outros, o romance “Nossa Parte de Noite” (Intrínseca, 544 páginas, tradução de Elisa Menezes) e “La Hermana Menor — Um Retrato de Silvina Ocampo”¹ (Ediciones Universidad Diego Portales, 211 páginas).

Carolina Sanín é, segundo o “La Nacion”, “uma voz muito respeitada (ouvida) no seu país. No Twitter, um colombiano de 51 anos comentou: “Parece-me que a decisão de cancelar o contrato foi concedida para a publicação de dois livros (que, aliás, não tenho medo de ver qual é o assunto) abre um precedente obscuro.”

Guillermo Quijas, editor do Almadía, vetou obras de Carolina Sanín no México | Foto: Reprodução

A agente de Carolina Sanín, Andrea Montejo, contou que o editor Guillermo Quijas, da Almadía, informou que, “depois de muitas discussões” e, “apesar de apreciar os livros” da escritora, não há mais condições públicas — dadas suas manifestações a respeito da trans emitir. Ao jornal mexicano “Excélsior”, a autora conta que o líder da editora sequer falou com ela.

Ao “La Nacion”, Carolina Sanín disse que ficou “muito abalada”. A Almadía é considerada uma editora respeitável, tendo publicado obras das escritoras Camila Fabbri e Samanta Schweblin, argentinas, Vanessa Londoño, colombiana, Jazmina Barreta, Clyo Mendoza e Daniela Tarazona, mexicana.

Os detratores de Carolina Sanín chamaram de “Tropical JK Rowling”. Por defender uma colega colombiana, Mariana Enriquez começou a ser duramente criticada nos países de língua espanhola. Também passou a ser acusado de “transodiante”. Recebi algum apoio, mas as críticas são maiores e mais contundentes.

Ao prestar solidariedade a Carolina Sanín, Mariana Enriquez resgatou o apreço da redação de Almadía. “É importante discutir e não concordar. É importante até para afirmar a própria posição”, afirma o escritor, que vem fazendo sucesso no Brasil e na Europa.

A posição de Mariana Enriquez é contra a censura à obra de Carolina Sanín — não se trata de apoiar suas ideias. A Argentina não é “transfóbica” ou “terf” (feminista transexcludente radical). “Eu não sou assustador. Estou feliz por viver em um país com a lei de identidade de gênero. Mas eu não gosto que seja decidido não publicar [a obra de] alguém porque pensa de uma forma que eu não concordo — os livros deles não tratam do assunto em questão” (transfobia). “[As obras] Podemos discordar disso.”

Mariana Enriquez, uma das mais importantes escritoras argentinas da atualidade | Foto: Reprodução

Mariana Enriquez diz que leu as postagens e um vídeo onde Carolina Sanín expressou suas ideias e reafirma: “Seus livros não têm nada a ver com isso. O editor pode decidir não trabalhar com ela? Claro. eu posso pensar que [que a decisão da Almadía] Não está correto”.

A escritora argentina Claudia Piñeiro defendeu a colega: “Compre, pegue emprestado ou retire da biblioteca alguns livros de Mariana Enriquez. Faça-se um favor. Eu, neste momento, estou lendo-a”. O autor recomenda a leitura de “Nossa Parte de Noite”. Este trabalho ganhou o Prêmio Herralde e foi recentemente publicado na Inglaterra.

Sem citar nominalmente os escritores envolvidos na polêmica, mas abordando-os, a escritora travesti-trans Camila Sosa Villada disse, no Twitter, ironicamente: “Qual é a culpa? Você dá ‘travas’, é claro. E alguém se beneficiou com tudo isso” (com a polemica).

Alexandra Kohan: ensaísta argentina | Foto: Reprodução

Autora da coletânea de contos “Pássaros na Boca e Sete Casas Vazias” (Phosphorus, 280 páginas, tradução de Joca Reiners Terron), Samanta Schweblin também se posicionou. Citando a escritora e editora Victoria Ocampo, a autora argentina disse que, apesar de liberadas, as mulheres continuam lutando para se expressar livremente. Existem “novos laços”. “Um brinde a tudo que nos ajuda a pensar. Ou seja, um brinde aos dois” (Mariana Enriquez e Carolina Sanín).

O escritor Sergio Olguín escreveu, em uma rede social: “Mariana Enriquez não entrou no Twitter por causa dos ataques nazistas, não por dois trolls pagos. Ela disse porque a intolerância está além de todas as causas, por mais dignas que sejam. Ataque alguém que está sempre do lado certo. Quanta falta de jeito e ignorância”.

Samanta Schweblin: autora da coletânea de contos “Pássaros na Boca” | Foto: Reprodução

Num tuíte, Carolina Sanín ironizou: “Olá. eu conversei com [o poeta, crítico e pensador] Octávio Paz [Nobel de Literatura de 1990 e falecido em 1998] nenhum paraíso que as mexicanas bem-pensantes tenham destinado aos roteiristas cancelados. É verdade que, enquanto houver espaços virtuais, é melhor que isso. Empatei nunca mais”.

Se a Almadía não quiser publicar a obra de Carolina Sanín, considerada de qualidade, ou se a Blatt & Rios anunciar que vai publicar, em dezembro, um livro de contos da autora.

Claudia Piñeiro: escritora argentina | Foto: Reprodução

Céline, Carolina Sanin e Cassia Kis

O escritor francês Louis-Ferdinand Céline era, como o homem, uma abominação. Pró-nazista, apoiou e sugeriu a perseguição aos judeus. Ele escapou de ser baleado graças ao seu imenso talento.

Ou o que fazer em relação à literatura da Céline: deixá-la por causa de sua posição política? O leitor que aprecia literatura de qualidade dificilmente deixará de ler “Viagem ao Fim da Noite” (Companhia das Letras, 506 páginas, tradução de Rosa Feire d’Aguiar), romance de rara beleza, tanto pela história quanto pela linguagem. O escritor era reacionário, em termos políticos, e, em termos literários, era revolucionário.

Louis-Ferdinand Céline: escritor francês relevante, mas anti-semita | Foto: Reprodução

Quanto a Carolina Sanín, não acompanho sua trajetória polemista (não gosto de suas ideias reacionárias) e sua literatura permanece inédita no Brasil. Mas censurar suas obras, não por qualidade — ou falta de qualidade —, e mesmo por críticas ao comportamento do alheio, resulta de intolerância. Se a prosa for grosseira, e seus críticos nas redes não discutirem, que o problema seja apontado. É justo criticá-la apenas por suposta “transfobia”, mas não é correto censurar sua obra literária.

Carolina Sanín ainda não foi publicada no Brasil. Está provado que, face à polémica, os editores patrópis vão-se embora inéditos. Felizmente, não somos iguais à Céline, da qual temos vários livros em português: “De Castelo em Castelo” (Companhia das Letras, 433 páginas, tradução de Rosa Freire d’Aguiar), “Morte a Crédito” (Nova Fronteira , 573 páginas, tradução de Maria Arminda de Souza-Aguiar e Vera de Azambuja Harvey) e “Norte” (Nova Fronteira, 423 páginas, tradução de Vera de Azambuja Harvey). E há um estudo exemplar de sua obra: “Céline e a Ruína do Velho Mundo” (Eduerj, 265 páginas), do brasileiro Dau Bastos.

Tem uma atriz da TV Globo que fala bobagem pra todo mundo, mostrando uma intolerância, uma ignorância e um mau gosto. Mas é democrático articular para que a rede de televisão possa demitir? Será que, num nome politicamente correto, deveríamos aceitar uma espécie de “intolerância do bem”? Será que a intolerância da extrema direita não está levando em conta quem não é, nestas, conservadores e reacionários?

A tradução do título do livro sobre Silvina Ocampo não é exata

¹ A Editora Relicário, uma das mais qualificadas do país, publicou o livro de Mariana Enriquez sob o título “A Irmã Menor — Um Retrato de Silvina Ocampo” (244 páginas), com tradução de Mariana Sanchez (autora de traduções de excelente qualidade ) . Há um “problema”: a tradução literal de “A Irmã Mais Nova — Um Retrato de Silvina Ocampo” é imprecisa. Em espanhol, “irmã menor” significa “mais novo”, a caçula. Não dou solução alternativa, porque “A Irmã Caçula” e “A Irmã Mais Nova” não soam bem, mas, convenhamos, “Irmã Menor” é ainda pior, porque não faz sentido (ou tem um sentido duvidoso significado). O leitor pode acabar comprovando que Silvina Ocampo, que foi casada com Bioy Casares, ainda ou então, por ser “menor”, ​​não teve importância como escritora, citando a de sua irmã “maior” (maior) , Vitória Ocampo.

Silvina Ocampo, em uma família de seis irmãs, era mãe, a única nascida no século XX, em 1903. Sua irmã mais velha, Victoria Ocampo (fundadora da revista “Sur” e da Editora Sur, orgulho cultural da Argentina), nasceu em 1890 — treze anos antes do autor da coletânea de contos “A Fúria” (Companhia das Letras, 254 páginas, tradução de Lívia Deorsola) e “As Convidadas” (Companhia das Letras, 224 páginas, tradução de Lívia Deorsola ).

Artista excepcional, Silvina Ocampo foi também poetisa e pintora (estudada em Paris). Ou o Brasil “descoberto” antes de Bioy Casares, mas, felizmente, está descobrindo sua prosa (mais próxima de Julio Cortázar, mas diferente). Mariana Enriquez conta que Bioy Casares era amante de uma sobrinha de Silvina Ocampo e da escritora Elena Garro, esposa de Octavio Paz. Em pinceladas rápidas, ele conta que a extraordinária poetisa argentina Alejandra Pizarnik tem um “saciar” (ou até obsessão) por Silvina Ocampo, aparentemente não correspondido.

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