Do livro ao cinema, ‘O Colibri’ segue livre da cronologia mas não das “grandes perdas”

Marco Carrera é um oftalmologista com uma vida boa e organizada. Todos os dias uma pessoa desconhecida entra em seu escritório, para fazer revelações desconcertantes e avisar que está em perigo. O episódio desencadeou um longo fluxo de memórias e os leitores são arrebatados pela narrativa, construída de forma nada convencional, entre avanços e declínios ao longo de várias décadas dos séculos XX e XXI. “Para mim, foi fundamental manter essa ordem, que não é cronológica. Escrevi assim mesmo, para pular de uma hora para a outra, e eles próprios tiveram coragem de fazer”, revelou o autor Sandro Veronesi, um dia antes do nascimento de ou beija-flor nas salas de cinema portuguesas, esta quinta-feira, 12 de janeiro. Dirigido por Francesca Archibugi, ou filme adaptado do livro homônimo, vencedor do Prêmio Strega italiano.

Quarto romance de Sandro Veronesi a ser adaptado para o cinema, após A Forza del Passato, caos calmo – como o que ganhou ou sua primeira Strega, há 16 anos – e gli sfiorati. Mas o autor nunca participa da escrita de dois roteiros. “Quando eu era novo, trabalhei na revista literária Nuovi Argomenti, que foi dirigido por Alberto Moravia, grande escritor italiano, e passou algum tempo com ele. Uma tarde, sem motivo aparente, ele me disse, diretamente, ‘nunca participe das adaptações cinematográficas de seus livros, você só precisa vender os direitos e ir ver o filme’, porque são idiomas completamente diferentes e a única coisa que você pode fazer é participar é criar problemas. Agora, sempre que me perguntam se quero fazer parte do processo, digo sempre que ‘o meu patrão não quer’”, disse, numa apresentação pública, promovida pelo Âmbito Cultural do El Corte Inglês.

ideia para ou beija-flor – que foi publicado em 2019 e só entrou nas bibliotecas portuguesas em 2022, pela mão de Quetzal – surgiu da vontade de voltar a viver a sua vida, mas teve oportunidade de fazer escolhas diferentes. Assim como o protagonista, Sandro Veronesi também mora em Roma e Florença, na Itália, e também cresceu na década de 1970. “Naquela época não dava para fazer tudo que a gente queria. Aprendi que escolher uma coisa era desistir de outra e comecei a imaginar essa pessoa, que poderia ter sido minha amiga, em vez de fazer as escolhas opostas. Naquela época, a ideia de mudar, de viver ali algo diferente e grande, era enorme, e esperávamos, porque acreditávamos que seria algo grandioso. Meu personagem não: Marco Carrera não prova que a jogada é boa e, ao contrário do que fez, foca em defender ou saber. E, de certa forma, tem razão: tens de mudar muito mais e fazer coisas que devias ter defendido”, admitiu, sem revelar o quê.

O filme, dirigido por Francesca Archibugi, que também escreve a trama, com Laura Paolucci e Francesco Piccolo, ou protagonista, Marco Carrera, e interpretado por Pierfrancesco Favino, e conta com nomes como Kasia Smutniak, Bérénice Bejo e Laura Morante no elenco. Depois da estreia mundial em Toronto, no ano passado, a que se seguiu a abertura da 17.ª edição da Festa do Cinema de Roma, em Itália, chegou finalmente aos cinemas portugueses. No grande ecrã, a história começa com um postal do Verão, numa aldeia perto da Beira-Mar, onde a família Carrera passa férias. Ou o pai e a mãe se preparam para sair com os amigos, enquanto seus três filhos, de vinte e poucos anos, também se preparam para seus próprios programas: Giacomo planejava aterrorizar o sofá e beber; Marco vai se encontrar secretamente com uma francesa porque está apaixonado; e Irene, que luta contra problemas de saúde mental, coloca telefones e se refugia na música. É nessa noite que, selando ou dando destino a dois personagens, ocorre uma tragédia.


“Eu escrevi a história, mas não tenho mais nada a dizer [sobre ela] Não sei o que escrevi”, confessou Sandro Veronesi, pela curiosidade do público. “Eu sabia desde o início que Marco Carrera sofreria grandes perdas e que é trágico uma derrota que é definitiva na largada. Foi por isso que decidi não escrever cronologicamente. Caso contrário, se um personagem for morto, ele nunca mais poderá aparecer. Desta forma, uma pessoa que sabemos que já morreu, pode aparecer de repente em um campo, correndo alegremente. E então, quando comecei a escrever de forma não linear, percebi que tinha feito a escolha certa, que era verdadeiramente livre, que podia escrever o que quisesse, como e quando quisesse. Claro que tive um problema. Durante a noite não consegui dormir porque pensei: ‘meu Deus, nunca vou chegar ao fim da noite’, e lembrei minha esposa no meio da noite, para pedir a ela para trabalhar mais para ganhar mais dinheiro e nos apoie. Ele já publicou muitos outros livros, mas nunca fez isso.”

Algo que Sandro Veronesi também nunca fez – e que deve provocar alguma expectativa em quem já leu ou beija-flor É difícil esperar para ver ganhar vida no escurinho do cinema – é o recurso a jantares de outros livros que ficaram marcados de tal forma que o autor italiano o adaptou à sua narrativa. “Não há tradição de copiar as histórias de outros dois, fazer pequenas alterações e incorporá-las à nossa história. Claro que o original é melhor, mas era exatamente o que eu queria para a página. E [no final do livro] Dei crédito aos autores, como um convite para que o leitor leia esses livros que me inspiraram, mas não pedi autorização para pagar taxas diretas. Claro que pensei que as reações seriam provocativas. Mas, alguns meses após o lançamento do livro, recebi uma carta [de Margherita Fenoglio, uma das herdeiras de um dos autores que Sandro tentou homenagear] Dizer que fiquei emocionado com minha decisão – fiquei aliviado por não querer processá-la – e que prazer foi me convidar para o centenário do nascimento de seu pai, Beppe Fenoglio [autor de Il gorgo, “um dos melhores contos italianos de sempre”]. E eu fui.”

+ Spielberg e ‘Abbott Elementary’ entre os vencedores de dois Globos de Ouro

+ O novo Time Out Lisboa de Inverno já está nas bancadas para o verão

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *