“A incrível sensação de ter um mundo em nossas mãos”

Foi por insistência de Talyssa da Silva Führ, 17 anos, que ela deixou o celular de lado e deu uma chance ao livro riscado na mochila. Faz sete dias que não estuda para “Harry Potter na Câmara Secreta” na biblioteca, mas a falta de interesse fez com que perdesse uma das histórias mais famosas da literatura infantil.

Após as aventuras do bruxo Harry Potter, um novo universo surgiu para o aluno. Os livros físicos ainda são os preferidos, mesmo que sejam digitalizados, permitem o acesso a uma maior diversidade de obras. “Nada melhor do que poder folhear as páginas e sentir aquela sensação incrível de ter um mundo nas mãos e poder sentir dentro dele assim que o leio”, comenta.

Da mesma forma, frequentadora assídua da Biblioteca Pública Municipal João Frederico Schaan, de Lajeado, Talyssa admira a herança da tranquilidade do meio ambiente. Hoje, a trilogia “Never Never Never” de Colleen Hoover está na lista de suas histórias favoritas.

Já a amiga Raíssa Tainá Weis dos Santos, 16, gosta mais da obra que mistura suspense, mistério e romance: “Mentirosas”, de E. Lockhart é seu livro preferido. Uma paixão surgiu durante o isolamento social. Para ela, a leitura é capaz de melhorar a fala, desenvolver o pensamento crítico e, muitas vezes, diminuir o estresse. “É uma válvula de escape, um mundo totalmente diferente, onde fugimos um pouco da realidade para descobrir universos diferentes”, enfatiza.

Talyssa ocupa ou encabeça a lista dos jovens que mais frequentam a biblioteca. Para ela, o ambiente é calmo e confortável

Uma biblioteca e adolescentes

O gosto literário dos jovens não é exceção. Os livros de Colleen Hoover, os preferidos de Talyssa, figuram na lista dos dois mais reformados da Biblioteca de Lajeado. O primeiro lugar é o “Diário de um Banana”, uma obra também dedicada a crianças ou jovens.

“De alguns anos para cá, a biblioteca está sempre aberta para adolescentes e crianças. Quando você tem uma sala de aula, então, o movimento é muito grande”, comenta a coordenadora local, Kelen Battisti Giongo. Uma mudança ocorreu já faz alguns anos e fez com que o público mais velho, em busca de literatura espírita, perdesse o primeiro lugar na lista de frequentadores. Em Estrela, o fenômeno se repete. Para a bibliotecária Ana Cristina Prates da Silva, uma possível explicação é o alto investimento das editoras em livros para essa faixa etária.

incentivo em casa

A cada 15 dias, a policial militar Charlí Faria Corrêa, 40 anos, escolhe um novo livro na biblioteca. Mas, para as crianças, os empréstimos são ainda mais rápidos, a cada três ou quatro dias. Entre as preferidas de Clara, de 11 anos, e Heitor, de 8, estão coleções como “Diário de Um Banana” e “Diário de Uma Garota Nada Popular”. A pequena Helena, de 4 anos, ouviu as histórias de dois gigis que sua mãe escolheu. “É muito importante incentivar a leitura porque amplia o vocabulário, desenvolve o raciocínio, melhora a escrita, estimula a imaginação”, reforça Charlí.

A percepção é compartilhada pela casa dos professores Adriano Azevedo, 49, e Ermides Azevedo, 42. Na escrivaninha do home office, os livros de contabilidade e educação física se misturam com as histórias da Disney, os dois filhos Lucas, 5, e Mateus, 9 “Eles crescem eu vendo o país lendo, então, eles sempre têm esse incentivo, ou que também cuidam de dois materiais”, diz Adriano.

De leitor a escritor

Quando Mateus e seus colegas trabalharam no “Livro da Turma”, surgiu uma nova possibilidade. Durante a pandemia, o aluno do Centro de Educação Básica Gustavo Adolfo escreve seu próprio livro, com ilustrações também de sua autoria. Lançado em outubro, “O menino na cuarentena e suas histórias” já foi publicado em audiolivro e braile. A primeira versão, porém, era manual. “Nós coamos por camada, vamos consertar tudo. Depois, ele pediu que eu, assim como as outras crianças, lesse o livro também”, conta Adriano. Foi então que a família entrou em contato com a Lume Organização de Eventos, em busca de patrocínio. Ao todo, foram impressas 3 mil unidades, todas destinadas à doação.

Durante a pandemia, o aluno do Centro de Educação Básica Gustavo Adolfo escreve seu próprio livro, com ilustrações também de sua autoria. Crédito: Júlia Amaral

“Alguns colegas leram o livro no primeiro dia em que o entreguei”, diz Mateus. Até lançar o trabalho, o aluno não conhecia outra educação que já tivesse sido feita ou a mesma. Mas, não mais que a publicação, Giovana Morais Rigo, 16 anos, também lançou seus livros infantis: “Sarali e a Magia dos Doces em una Aventura en Alto Mar”. Um jovem ainda não sabe que profissão vai seguir, mais de uma coisa não abre mão. “Tenho certeza que a leitura sempre fará parte da minha vida.”


ENTREVISTA – Grasiela Kieling Bublitz • Professora do curso de Letras da Univates

“Qualquer incentivo ao manuseio de obras literárias é positivo

Existem livros infantis feitos de plástico ou materiais que podem ir para a água. Ou seja, são destinados a um público que vai usar o livro para pular. Quais benefícios você tem na vida de uma criança, ainda na primeira infância?

Uma das práticas mais relevantes para o futuro escolar é a leitura compartilhada de histórias, ou seja, a leitura em voz alta por um adulto para a criança. Qualquer ação nesse sentido só traz benefícios: amplia o vocabulário, desenvolve a compreensão da linguagem oral, estimula a imaginação, promove o gosto pela leitura e, o mais importante, fecha o vínculo afetivo com quem conta a história, ou seja, com o país ou responsáveis. Portanto, qualquer incentivo ao manuseio de obras literárias é positivo

Entre os jovens que não se interessam pela leitura, é possível reverter esse quadro? Que?

Se crescer ou jovem vir que os adultos com quem convive lêem com frequência, serão naturalmente estimulados ao hábito. Como professor de literatura do ensino médio que fui por anos, costumava ler textos menores oralmente, como contos, por exemplo, para os alunos conhecerem o autor ou o período histórico em que os textos foram escritos. E a tarefa não ficava só niso. Desafiava alguns de nós a transformar textos literários em marcadores cinematográficos, ou que o tornassem mais interessado em narrativas. A partir desse dia, eventos como festivais de cinema e literatura tornaram-se outro desafio aliado à tecnologia. Cabe também ao professor oferecer alternativas interessantes e criativas para promover a leitura.

“Leia mais” é item frequente na lista de metas para o novo ano. Quais as dicas para quem quer ler mais em 2023?

Se o assunto for de interesse, certifico que pode ser afastado a partir de hoje. Atualmente temos uma infinidade de possibilidades de buscar na internet sugestões sobre determinados temas. O filme que vi é baseado em uma obra literária? Por que não conhecer a fonte? Por que não conhecer o autor da obra original? Por que não conhecer as resenhas críticas sobre o livro e sobre o filme?

Mensalmente, pelo segundo ano consecutivo, a Univates promove virtualmente o Literando*, que busca discutir diferentes autores e gêneros literários para discutir não só com a comunidade acadêmica, mas também com a comunidade externa, a fim de incentivar a leitura. A ação vai continuar em 2023 e o convite já está aqui. Inscrições totalmente gratuitas.

Sobre a Biblioteca Pública de Lajeado

Livros mais aposentados em 2022:

1º – Diário de uma Banana, de Jeff Kinney

2º – Harry Potter e a Pedra Filosofal, de JK Rowling

3º – Cuarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus

4º – Diário de Rowley: Um garoto supimpa, de Jeff Kinney

5º – O Ladrão de Raios, de Rick Riordan

– A Biblioteca Pública de Lajeado oferece uma caixa para sugestão de obras que devem ser adquiridas;

– Hoje, são cerca de 30 mil obras no acervo;

– Em 2022 temos 735 novos livros;

– Em 2022, mais de 29 mil empréstimos e devoluções e 33 mil pessoas circulam na Biblioteca.

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